Lembro-me de que quando criança, um dia perguntei a minha mãe porque o céu era azul. Ela, depois de pensar, respondeu-me com um rosto banhado em paciência: "É azul porque é". Não me contentei e perguntei novamente dizendo que aquilo não era resposta. Agora, não com tanta paciência como antes, respondeu-me: "É azul porque Deus fez assim. E ponto final."
Deparei-me num beco sem saída, a resposta não me contentava, mas julguei que não poderia contestar algo feito pelo próprio Deus, e calei-me de minhas incertezas.
Hoje, lembrando-me disso, ri e vi.
Que mesmo quando criança percebi, que quando pressionado, as pessoas tendem a culpar outras coisas por suas infelicidades, e logo, o divino. Mas seria o divino tão culpado assim? E aliás, o que é divino?
Depois de muito me perguntar, cheguei à uma resposta que me satisfez por hora "Divino é tudo aquilo que é irredutível de incertezas, aquilo que é tido como universal, independente do tempo ou forma com a qual é vista". Pode não ser a resposta certa, mas é a que achei, e a que me satisfez. Mas quem me garante que essa resposta seja certa? E quem me garante que não seja?
Ninguém.
A vida é estranha.
Aliás, viver é difícil e estranho.
Sei que eu particularmente, não entendo a vida ou a mim mesmo em alguns dias, dependendo de como acordo.
Me olho no espelho e não reconheço a face ali refletida.
Olho cada forma, cada sinuosidade, e pergunto"Esse sou realmente eu? Sou quem fui ontem ou quem serei amanhã? Quem sou eu hoje?".
Nem sempre tenho repostas para as dúvidas que me afligem e talvez esse seja o pior castigo para o homem: Não saber.
Durante o tempo, pode-se ver que, muitas são as dúvidas, e nenhuma é mais relativamente importante ou de maior gravidade que a outra, pois como os sábios já diziam "As verdades são questão de quem as vê, e da forma como ele as olha". E na realidade o mundo também é assim. Uma verdade distorcida pelo ângulo no qual se olha. Como uma pintura que te segue com os olhos conforme se anda pelo quarto.
Deparei-me ainda a pouco com um pensamento que quase me fugiu à percepção: Não existe uma verdade universal, pois não existe dois pontos iguais em duas pessoas diferentes. As verdades mudam conforme a percepção de quem as enxerga, conforme as diferentes pessoas, que afligidas, como eu, por dúvidas sem resposta, formulam e assumem suas próprias idealizações como verdades. Então na realidade, nada é comprovado de toda veracidade, pois sua confirmação depende da capacidade de crer de outrem.
E na realidade, tudo é assim, pequenos devaneios de mentes conflituosas, que são assumidos como revelações, que são assumidos como verdades. Com o passar do tempo, também absorvemos tais conceitos e acabamos por dar divindade, aquilo que um segundo atrás era apenas uma loucura, um devaneio, um pensamento.
Pois, o ser humano é visual, e incrivelmente dependente, assim como, constantemente temeroso. Teme estar só, e assim vive em conjunto, teme a morte, e assim, cria planos e dimensões para onde supõe que vá quando a fatídica hora chegar. Mas mais do que tudo, teme não saber, e assim, passa sua existência inteira buscando por um conhecimento que provavelmente nunca alcançará.
E essa é a beleza da vida. Correr atrás de sonhos que como fumaça, escapam por nossos dedos nos fazendo assim correr mais rápido para alcançá-los. Perseguir ideias e verdades irredutíveis, que em suas próprias frações de mentiras, se tornam divinas, e assim, universais . Procuram sentido, procuram algo que muitos poucos conseguem enxergar. Porque procuram sem procurar.
Pois o homem não quer realmente responder as perguntas que lhe afligem, pois ao se sanar uma dúvida, como as cabeças de uma Hidra, duas nascem no lugar da primeira. Esse é o temor humano. Ser sufocado por suas incertezas. Ver o real aspecto daquele que se reflete no espelho. Descobrir e não gostar do segredo. Se decepcionar.
Pois é isso o que acontece quando esperamos muito de algo. Decepção, e com ela o peso que nos fere a alma.
E assim, refleti e cheguei a minha própria resposta para a pergunta que fiz a minha mãe a tanto tempo atrás: O céu é azul pois assim desejamos. O céu é azul porque após muito pensar, o homem decidiu que assim seria. Pois o mundo e a forma como ele gira, nada mais é do que uma reflexão de nós mesmos. Uma reflexão estranha e distorcida, que não reconhecemos no instante em que a vemos.
Pois de certa forma, em suas irrelevâncias e dúvidas o homem é irredutível.
Pois no final, todos somos pequenas partes de um quadro bem maior. Pequenas irredutividades de um grande sistema. E do fogo ao fogo, e do pó ao pó.
Pois um é tudo e tudo é um.
Nenhum comentário:
Postar um comentário